02/04/2025 | Por: Notícias ao Minuto
Ativista fundadora do grupo Nas Ruas, ganhou notoriedade nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT). (SECOM / Presidencia República)
(FOLHAPRESS) - A
deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) diz se arrepender do episódio em que
perseguiu um homem com arma em punho na véspera da eleição de 2022 em São
Paulo. "Devia ter entrado no carro e ido embora."
Ela se vê
abandonada por Jair Bolsonaro (PL), de quem era uma das principais aliadas, e
discorda do ex-presidente, que credita a ela a derrota para Lula (PT) naquele
pleito. "Não só eu como outras pessoas também perderam a amizade do
presidente no momento que precisaram", afirma.
Na última semana,
o STF (Supremo Tribunal Federal) formou maioria para condená-la a 5 anos e 3
meses de prisão em regime semiaberto e à perda de mandato por porte ilegal de
arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma. O julgamento está
suspenso.
Porta-voz de
destaque do discurso bolsonarista contra urnas, ela ainda buscará reverter, no
TSE (Tribunal Superior Eleitoral), uma condenação por desinformação.
Para representar
a direita na eleição de 2026, Zambelli defendeu os nomes de Michelle e Eduardo
Bolsonaro (PL-SP). Após a entrevista, a deputada procurou a reportagem e disse
ter mudado de ideia sobre a resposta, afirmando ser muito cedo para falar sobre
um cenário ainda não definido.
*
Folha - Como a sra. define seu momento atual?
Carla Zambelli - Estou num momento mais difícil politicamente
falando. Nunca imaginei passar por uma situação dessa. Uma possível prisão, por
um crime que não cometi. Considero isso uma perseguição política.
Folha - Na última
segunda-feira, o ex-presidente Bolsonaro disse 'a Carla Zambelli tirou o
mandato da gente', sobre o episódio com a arma. Como avalia essa fala?
Carla Zambelli - Eu discordo do presidente Bolsonaro. Eu acho que
atrapalhou, sim. Mas não teve vários dias de divulgação dessa imagem. Foi
simplesmente meio dia. Não acho que tanta gente tenha mudado de opinião em
relação ao voto que daria.
É um peso
bastante grande ter ouvido aquilo. Pesou bastante nas minhas costas. Na
verdade, desde 2022 enfrento depressão por causa desse episódio e tive vários
momentos bem ruins. Ter ouvido isso dele me deixou bastante chateada.
Folha - A sra. se
vê, de certa forma, abandonada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro?
Carla Zambelli - Sim.
Folha - O que a
sra. esperava?
Carla Zambelli - Acho que esperava apoio. Desde 2013 eu apoio o
Bolsonaro. Antes como ativista, nas causas dele, ajudei na eleição de 2018.
Durante todo o governo. Acho que eu fui uma das pessoas mais linha de frente
dentro do Congresso para poder defender o governo, o presidente.
Esperava ter
algum tipo de retribuição em relação a isso. Ou seja, contar com a amizade dele
nesse momento difícil. Mas acho que não só eu como outras pessoas também
perderam a amizade do presidente no momento que precisaram.
Folha - A sra.
pretende ir em algum ato a favor de Bolsonaro, como no dia 6 de abril na av.
Paulista?
Carla Zambelli - Não, eu não vou no dia 6 de abril, porque é sobre
anistia. Se chegar na Câmara para votar, vou votar a favor da anistia, mas não
posso agora me colocar em risco no meio do meu julgamento.
Folha - E
manifestações a favor do ex-presidente que venham a acontecer fora essa?
Carla Zambelli - Não sei, ainda não pensei em ir ou não, mas a
princípio não.
Folha - Em 2023,
em entrevista à Folha, a sra. disse que Bolsonaro deveria ter sido claro sobre
o que pensava, dizendo para as pessoas saírem dos quartéis, e também que ele
deveria estar no Brasil para liderar a oposição. Mantém essa avaliação?
Carla Zambelli - Mantenho. Acho que ele tinha que estar no Brasil e
tinha que ter falado para as pessoas saírem de frente do quartel.
Devia ter esclarecido, ou ter feito a live lá de fora, falado 'já tô fora do
Brasil, agora não tem mais chance de voltar atrás', e pedir para as pessoas
irem embora. Isso evitaria o que aconteceu depois.
Folha - O
ex-presidente ainda se coloca como possível candidato, apesar de estar
inelegível. Como a sra. vê o cenário para 2026, quem poderia representar a
direita?
Carla Zambelli - Tem a Michelle, a esposa do Bolsonaro, que é uma
excelente candidata. Eu acho que é uma pessoa boa e que deveria ter o apoio do
presidente. O Tarcísio [de Freitas] também é outra opção.
Só espero que a
gente tenha isso tido com antecedência, que nos digam com antecedência para a
gente poder trabalhar.
Ele [Tarcísio]
hoje é uma pessoa que agrada também a esquerda, agrada o sistema, porque ele
tem uma certa entrada pelo STF, tem amizade com alguns ministros. Acho que
talvez o Tarcísio seja um bom nome na perspectiva do Bolsonaro.
Folha - E na sua
perspectiva?
Carla Zambelli - O Eduardo [Bolsonaro] é um bom nome, mas não sei
se ele teria o apoio da população como um todo. E a própria Michelle, eu gosto
muito do nome dela. Independente do que o Bolsonaro falou sobre mim.
Folha - Tarcísio,
então, como preferência pessoal, a sra. não apontaria?
Carla Zambelli - A princípio, não.
Folha - O
ex-presidente Bolsonaro se tornou réu no caso da trama golpista. Como a sra. vê
essas acusações, especialmente envolvendo a minuta de estado de defesa e de
sítio?
Carla Zambelli - Acho que é absurdo. Como é que um artifício, uma
lei que está dentro da Constituição Federal, pode ser golpe? Acho que não tem
nada a ver.
Primeiro, porque não foi colocado de fato. Pode ter sido aventado, mas não foi
colocado em votação. E segundo que não houve golpe. O Lula teve o poder, pegou
o poder e continuou no poder numa boa.
O que teve foi uma manifestação com alguns vândalos, com outras pessoas também
defendendo bastante os lugares. Não acho que teve nada a ver com o golpe que
aconteceu no final de 2022 e início de 2023.
Folha - E sobre
as minutas?
Carla Zambelli - Eu recebi uma minuta. Era uma espécie de um
decreto, uma coisa assim, e perguntei na época para uma das pessoas do jurídico
do presidente Bolsonaro, do Palácio do Planalto, e ele me disse que era fake.
Não acho que o Bolsonaro, algo que está impresso, ou que eventualmente chegou
na mão dele... Chegou na minha mão também, e nem por isso eu tinha algum
envolvimento com o golpe.
Folha - Segundo
as investigações, não tinha indício ou prova de fraude em 2022. A sra.
considera que havia elementos para implementar um estado de sítio, de defesa ou
mesmo o artigo 142?
Carla Zambelli - Não, não acho. Mas também não acho que é crime
você estudar o assunto.
Folha - No fim de
novembro de 2022, a sra. divulgou um vídeo em que dizia, "Dia 1º de
janeiro, srs. generais quatro estrelas, vão querer prestar continência a um
bandido ou à nação brasileira? Não é hora de responder com carta se dizendo
apartidário. É hora de se posicionar. De que lado da história vocês vão
ficar?". O que a sra. queria dizer com 'é hora de se posicionar'?
Carla Zambelli - Acho que era o momento de os generais dizerem se
Lula era bandido ou não.
Folha - No dia
seguinte ocorreu uma audiência no Senado sobre supostos indícios de fraudes nas
urnas, em que se falou sobre eventual uso do artigo 142, e em que a sra.
estava. O contexto do vídeo era de outro tipo de posicionamento.
Carla Zambelli - Não posso falar sobre isso, porque é motivo de um
processo contra mim e que ainda está acontecendo [no STF].
Folha - O
relatório da PF em que o ex-presidente foi indiciado afirma que a sra. foi
citada no depoimento do ex-comandante da Aeronáutica Baptista Jr. e que teria
dito a ele: 'Brigadeiro, o sr. não pode deixar o presidente na mão'. O que a
sra. quis dizer?
Carla Zambelli - Na verdade, eu falei em dar força para o
presidente. O presidente tinha perdido as eleições e eu falei para ele dar uma
força para o presidente. Ele, na época, não respondeu nada. E ele diz na
Polícia Federal que respondeu que não faria nada de ilegal, alguma coisa assim.
Ele não respondeu isso. Ele mentiu no depoimento dele.
Folha - Ele ficou
em silêncio?
Carla Zambelli - Não, ele falou alguma outra coisa que eu não me
lembro bem o quê, que faz muito tempo. [Se ele tivesse dito isso] teria dito
'eu não tô te pedindo para fazer nada ilegal'.
Folha - Quando a
sra. diz dar uma força para o ex-presidente, havia uma expectativa de que
houvesse algum caminho para que ele ainda se mantivesse no poder?
Carla Zambelli - Existia, sim. Existia a possibilidade, por
exemplo, do artigo 142 colocar não ele no poder, né, mas as Forças Armadas no
poder, para depois fazer uma nova eleição e tal com urna impressa.
Mas assim eram comentários de algumas pessoas e que a gente não via de fato
acontecer isso de verdade, não tinha nenhuma ação para isso acontecer.
Folha - Mas houve
reuniões e conversas dentro do governo, segundo as investigações. A sra. está
dizendo que isso não aconteceu...
Carla Zambelli - Não participei. A gente ouvia dizer, né, ouvia
falar, mas não participei de nada.
Folha - 'Dar uma
força' poderia estar dentro de um eventual uso do artigo 142?
Carla Zambelli - Não falei nada que pudesse dar a entender que
seria isso.
Folha - A sra.
foi condenada a cassação e inelegibilidade no TRE-SP e tem maioria pela
condenação no STF no caso da arma. Acredita que vai conseguir reverter esses
casos na Justiça?
Carla Zambelli - No caso da cassação, a gente tem o TSE agora, para
recorrer. É lógico que as chances são baixas, mas a gente vai recorrer e vai
tentar. [Senão] Não só eu perco o mandato, mas os deputados que foram levados
com os meus votos.
Em relação à
condenação do STF por porte ilegal, ainda tenho sim esperança. Acho que o
Gilmar Mendes, o ministro relator, e os outros ministros que já votaram, eles
eventualmente podem não ter visto meu porte [de arma] lá na minha defesa, mas
eu tinha porte federal. [Gilmar aborda esse argumento em seu voto]
Folha - [No caso
das armas] A sra. considera que a situação naquele dia foi proporcional ao que
aconteceu?
Carla Zambelli - Foi proporcional porque teve um tiro. E no momento
que teve o tiro e que o policial caiu no chão, ele [Luan Araújo, o homem
perseguido] estava em flagrante delito, o policial tinha dado voz de prisão
para ele. Eram quatro homens que não só me ofenderam, cuspiram em mim, me
xingaram, empurraram meu filho e me empurraram também.
Aí, quando ele
foge e eu escuto o tiro, eu só saco a arma depois do tiro. Então, ela foi
proporcional, porque quando tem um tiro, você pode sacar sua arma... Na
verdade, até antes do tiro eu poderia sacar a arma, né?
Depois a gente
ficou sabendo que o tiro tinha sido disparado pelo próprio policial quando
caiu. Mas eu, ouvindo um tiro, tenho como pensar que pode ter sido outra
pessoa. Então, acho que foi proporcional, sim. Pegando todo o contexto, não
acho que eu estava errada.
Folha - No vídeo,
depois que ele tinha ofendido a sra, é no momento que ele já está se afastando
em que a sra. começa a correr atrás dele.
Carla Zambelli - É o momento que eu caio. Na verdade ele não está
se afastando. O carro dele estava no lado contrário, pelo qual ele tava
andando.
O que aconteceu foi que ele me chamou de prostituta e na hora a cabeça ferveu e
eu queria bater nele. Minha ideia ali nunca era sacar a arma. Era trocar soco
com ele, a princípio. E depois que teve o tiro, eu tirei a arma.
Aquilo ali foi só
uma atitude infeliz que eu tive de ir atrás dele. Infelizmente, ali foi onde eu
errei, de querer trocar as tapas, soco, com o homem. Eu jamais ia ganhar um
negócio desse.
Como mulher eu
deveria ter ido embora, ter cuidado da minha vida, ter aguentado...[Mas]
naquele dia eu tinha passado a madrugada recebendo muita ameaça de morte. E
aquele alerta que eu estava acabou prejudicando o meu julgamento.
Folha - Caso a
sra. não consiga reverter a inelegibilidade, pretende voltar para a política
depois?
Carla Zambelli - Pretendo, em 2030. Não vão se livrar tão cedo de
mim.
Folha - Tem algo
na sua trajetória na política que a sra. se arrepende ou faria diferente?
Carla Zambelli - Esse dia de ter ido atrás desse rapaz. Devia ter
entrado no carro e ido embora, como fazia sempre todas as vezes que tentavam,
até hoje, que tentam brigar comigo na rua. Esse dia foi o único dia que eu não
saí, infelizmente. Mas me arrependo, deveria ter saído.
Folha - E mais
alguma coisa?
Carla Zambelli - Ter confiado ou me doado demais por algumas
pessoas.
Folha - Alguém em
específico?
Carla Zambelli - Não. Eu não me arrependo de ter ajudado o
Bolsonaro, sabe? Algumas pessoas podem achar que eu posso me arrepender. Eu não
me arrependo, não. E vou continuar defendendo ele no que eu achar que é certo.
RAIO-X | Carla
Zambelli, 44
Ativista fundadora do grupo Nas Ruas, ganhou notoriedade nos protestos pelo
impeachment de Dilma Rousseff (PT). Foi eleita deputada federal pelo PSL em
2018 e reeleita pelo PL em 2022. É gerente de projetos, formada em planejamento
estratégico empresarial na Universidade Nove de Julho.
Fonte: Notícias ao Minuto
Jornalista responsável:
Jornalista Adalmir Ferreira da Silva
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